“Não só (tiveram acesso) à minha atividade durante esse período, mas a todo o meu histórico de e-mails e todos os meus contatos e conexões. Tudo é vigiado, computadores, telefones, nada é seguro. Mesmo quando conversamos, eles podem estar ouvindo. Não me sinto mais seguro.”

Rukundo fugiu de Ruanda em 2005, quando críticos do governo começaram a ser presos. E precisou lutar para libertar a esposa depois que ela foi sequestrada e detida por dois meses em uma visita que fizeram à família em 2007.

O Facebook está tentando processar o NSO Group.

A empresa nega, no entanto, qualquer irregularidade.

Em documentos judiciais, o Facebook acusa a empresa de explorar uma vulnerabilidade então desconhecida no WhatsApp.

O aplicativo é usado por aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas em 180 países.

O serviço de mensagens instantâneas é conhecido por sua criptografia de ponta a ponta, o que significa que as mensagens são embaralhadas à medida que trafegam pela internet, tornando-as ilegíveis se interceptadas.

A ação, ajuizada em um tribunal distrital da Califórnia, descreve como o NSO Group supostamente instalou o software espião.

O poderoso software da empresa, conhecido como Pegasus, é um programa capaz de extrair de forma remota e clandestina informações valiosas de dispositivos móveis, compartilhando todas as atividades do telefone, incluindo dados de comunicação e localização, com o hacker.

Empresa com sede em Israel é acusada de ter fornecido o software espião que permitiu aos assassinos do jornalista saudita Jamal Khashoggi rastreá-lo

© Getty Images Empresa com sede em Israel é acusada de ter fornecido o software espião que permitiu aos assassinos do jornalista saudita Jamal Khashoggi rastreá-lo

Em episódios anteriores, as vítimas eram levadas a baixar o software espião clicando em links maliciosos na web.

Mas no caso do hackeamento do WhatsApp, o Facebook alega que o programa foi instalado nos telefones das vítimas sem que elas realizassem qualquer ação.

A companhia diz que entre janeiro de 2018 e maio de 2019, o NSO Group criou contas do WhatsApp usando números de telefone registrados em diferentes países, incluindo Índia, Israel, Brasil, Indonésia, Suécia e Holanda.

Um relatório de setembro do ano passado do Citizen Lab, ligado à Universidade de Toronto, identificou um total de “45 países nos quais o Pegasus está sendo provavelmente utilizado em operações de rastreamento”. O estudo abrangeu o período de agosto de 2016 a agosto de 2018.

Em abril e maio, o grupo atacou então seus alvos fazendo ligações pelo WhatsApp.

“Para evitar as restrições técnicas incorporadas aos servidores de sinalização do WhatsApp, os réus formataram as chamadas com código malicioso para parecerem uma chamada legítima e ocultaram o código nas configurações de chamada”, diz trecho da ação judicial.

“Disfarçar o código malicioso como configurações de chamada permitiu que os réus o entregassem ao dispositivo alvo e fez o código malicioso parecer como se fosse originário dos servidores de sinalização do WhatsApp”, acrescenta o documento.

Assim, as vítimas não teriam ideia de que foram hackeadas. Em alguns casos, a única coisa que notaram foram chamadas perdidas misteriosas nos registros do WhatsApp.

O documento afirma que o Facebook:

– Acredita que o ataque foi uma violação de sua rede de computadores;

– Quer uma liminar que impeça que o NSO Group tenha acesso a suas plataformas;

– Aceita que o NSO Group pode ter executado os ataques supostamente em nome de seus clientes, mas está processando a empresa como responsável pela criação do software.

O Facebook também alega que a infraestrutura usada pelos hackers incluía servidores pertencentes a outras empresas, como a Amazon Web Services (AWS).

A AWS pertence a Jeff Bezos, que também é dono do The Wall Street Journal, jornal americano para o qual o repórter saudita Jamal Khashoggi, assassinado ano passado em consulado saudita na Turquia, trabalhava.

O NSO Group é acusado de ter fornecido o software espião que permitiu aos assassinos de Khashoggi rastreá-lo.

A companhia nega, no entanto, envolvimento no incidente e afirma que lutará contra as acusações.

“Com a maior veemência possível, contestamos as acusações de hoje e as combateremos vigorosamente”, declarou a empresa em nota à BBC.

“O único propósito do NSO Group é fornecer tecnologia às agências governamentais de inteligência e segurança para ajudá-las a combater o terrorismo e crimes graves”, completou.