Enquanto governos de diversos países se apressam para definir regulamentações para a inteligência artificial (IA), nações em desenvolvimento como o Brasil correm sérios riscos se não fizerem o mesmo, segundo especialistas.

A IA tem se tornado uma prioridade estratégica para economias globais, que buscam usar a tecnologia para apoiar decisões em áreas como saúde, segurança pública e educação. O futuro parece promissor, mas há desafios como garantir segurança e ética na aplicação da tecnologia.

O Brasil é um dos 42 signatários de diretrizes para o uso responsável de tecnologia lançadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD). A abordagem destes países em relação à IA varia: na China, União Europeia e no Reino Unido, os princípios têm sido definidos pelo governo, enquanto os Estados Unidos intervêm o mínimo possível na criação de políticas públicas e deixam que os atores do mercado, como a Microsoft e a Google, liderem o processo.

Segundo Daniel Hulme, professor da University College London, CEO da consultoria Satalia e uma das principais vozes no debate mundial sobre IA, governos devem tomar as rédeas quando o assunto é criar regras para a tecnologia.

“Já existe um entendimento generalizado de que os países que investirem em IA são os que irão vencer”, aponta. “Mas governos tendem a trazer regulamentação só quando as coisas dão errado, e o problema é que, com a IA, as coisas podem dar errado muito rápido à medida em que [a tecnologia] ganha escala.”

O governo brasileiro afirma ter o desenvolvimento de uma estratégia de IA como prioridade. O ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, apontou em fevereiro de 2019 que o “Brasil não pode ficar para trás” na corrida para a liderança em IA e que um centro seria escolhido para concentrar as pesquisas.

Neste mês, a Universidade de São Paulo foi escolhida para ser a base do maior centro de inteligência artificial do país. O centro será mantido pela Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo (FAPESP) e a IBM, que farão um investimento anual de US$ 1 milhão no centro.

Em comparação, os Estados Unidos recentemente anunciaram US$ 973 milhões em investimentos direcionados para IA. O Reino Unido vai injetar £1 bilhão em sua estratégia para a tecnologia, em áreas que vão de pesquisa e desenvolvimento de sistemas e investigações sobre ética a treinamento da força de trabalho.

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Países onde a regulamentação de IA for mais frouxa propiciarão um cenário que apresentará perigos às suas populações, segundo Hulme. “Empresas que não precisarem aderir à alguma regulamentação tenderão a vencer, mas provavelmente também causarão danos à sociedade.”

Para combater esses riscos, Hulme propõe uma abordagem “muito mais sofisticada” do que os atuais dispositivos de proteção de dados em uso atualmente. Esta abordagem descentralizada consiste em uma plataforma onde empresas desenvolvem produtos e serviços baseados em IA de forma transparente, com influência de governos.

Segundo o especialista, se empresas se responsabilizarem de forma transparente com relação a seus propósitos e seus objetivos de desenvolvimento sustentável, isso gerará uma medida que consumidores podem usar para guiar suas próprias decisões de consumo e até mesmo outras escolhas de mercado, como emprego.

“Temos uma geração de pessoas que não estão somente focadas em ganhar dinheiro ou consumir, mas gerar um impacto positivo para a sociedade”, afirma. “Se conseguirmos fazer com que empresas sejam transparentes, as forças do capitalismo farão com que indivíduos decidam usar seus recursos somente com as organizações que têm um propósito, por meio de consumo e contribuição.”

A visão de Hulme evolui para um cenário no qual um indivíduo responsabilizará o outro por seu consumo com organizações que empregam tecnologias como IA de forma não ética. “Se o que as empresas fazem ficar muito mais visível, um consumidor poderá questionar por que o outro usa um produto ou serviço que comprovadamente causa danos ao meio-ambiente, por exemplo. Minha esperança é que as pessoas policiem umas às outras.”

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A IA será o maior desafio dos tomadores de decisão em recrutamento no setor de tecnologia nos próximos cinco anos, segundo um novo estudo da KPMG. Segundo a pesquisa The Future of HR in the Technology Sector, 55% das empresas veem a IA como seu principal recurso. Isso se compara a 36% de departamentos de RH como um todo.

Preparar empresas para integrar suas forças de trabalho humana e digital em um setor no qual a demanda por profissionais só aumenta é uma das maiores preocupações de gestores, segundo o estudo. Outro problema é administrar divergências entre millenials e líderes mais sêniores nas empresas de tecnologia com relação aos benefícios de ferramentas como IA em áreas como engenharia, estratégia e marketing.

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O executivo norte-americano Travis Foxhall teve hoje seu primeiro dia de expediente como chefe de equipe no banco digital Neon. Mais de dois meses depois de dizer sim para a mudança para o Brasil, o executivo finalmente recebeu seu visto e desembarcou em São Paulo na quarta-feira passada. Foxhall trabalhará diretamente com o fundador e CEO da empresa, Pedro Conrade, e o COO, Jean Sigrist, em iniciativas estratégicas e projetos especiais.

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IHARA, empresa de pesquisa e desenvolvimento especializada em tecnologias e defensivos para a proteção de cultivos, fechou parceria com a aceleradora norte-americana Plug and Play, que inaugurou seu escritório no Brasil em setembro. Na colaboração, a IHARA será uma das empresas responsáveis por selecionar startups do setor de agronegócios no Brasil. A Plug and Play tem o Banco do Brasil, Braskem e Gerdau entre seus maiores clientes no Brasil. O Cartão Elo e a Klabin estão entre os membros fundadores do espaço em São Paulo.

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Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC, The Guardian e outros.