Um tema que vem sendo debatido por entusiastas da exploração espacial nos últimos tempos é a ideia de bombardear Marte com armas nucleares para aquecer o planeta a ponto de torná-lo relativamente confortável aos futuros exploradores humanos. Elon Musk, CEO da SpaceX, se mostrou um defensor desta ideia, falando várias vezes em seu Twitter sobre “nuke Mars” — “nuke” é uma abreviação de “nuclear weapon”, que significa “arma nuclear”.

Essa ideia vem sendo explorada por Musk desde 2015, na verdade, quando ele explicou durante uma entrevista na televisão norte-americana que a vaporização das calotas de gelo em Marte seria uma boa maneira de aquecer o planeta o suficiente para que humanos vivessem ali.

Desde então, o CEO da SpaceX vez ou outra fala no assunto de novo por aí, em especial em seu Twitter — e recentemente o fez de novo, quando falou sobre “nuke Mars” no sentido de “criar sóis artificiais”, mas garantindo que isso não tornaria Marte mais radioativo.

Em outro tweet, ele segue dizendo que “precisamos descobrir a maneira mais eficaz de converter massa em energia, pois Marte está um pouco distante do reator de fusão do Sistema Solar (o Sol)”, ao responder a um seguidor que o questionou sobre riscos associados a uma terraformação marciana por meio de bombas nucleares.

Spoiler: não é uma boa ideia

Assim poderia ser a aparência de uma Marte terraformada

Assim poderia ser a aparência de uma Marte terraformada

Phil Plait, astrônomo do blog Bad Astronomy, refletiu a respeito da ideia de “nuke Mars” e, dando um spoiler, bombardear Marte com armas nucleares para aquecer o planeta não é uma boa ideia. Ele começa sua reflexão lembrando que, de todos os planetas do Sistema Solar, Marte é o mais parecido com a Terra quando se pensa na capacidade de habitabilidade, enquanto Vênus é o mais próximo de nós em termos de tamanho e massa. Mas Marte tem apenas 0,6% da pressão atmosférica da Terra e, portanto, permanecer em sua superfície sem um traje pressurizado seria o equivalente a respirar 30 km acima da superfície da Terra, e essa pessoa sufocaria antes de congelar até a morte nas temperaturas geladas do Planeta Vermelho.

Agora vem a questão de como aquecer Marte e resolver parte do problema: o planeta tem calotas polares onde há boa concentração de dióxido de carbono (CO2) e vapor de água (H2O), então descongelar as calotas polares para liberar essas substâncias, criando um efeito estufa, liberaria CO2 e H2O suficientes para tornar Marte habitável? A ideia (defendida por Elon Musk por meio de bombas nucleares) parece interessante à primeira vista, mas Plait garante que essa é uma ideia que não é viável realisticamente falando, e nos lembra de um estudo publicado na renomada revista Nature no ano passado: os pesquisadores investigaram a quantidade de gás que precisaria ser adicionado à atmosfera marciana para que a água líquida pudesse existir em sua superfície, e onde esse gás poderia ser encontrado.

“Eles observaram que, embora o vapor de água seja um gás de efeito estufa, ele simplesmente congela de volta à atmosfera se descongelado conforme as coisas mudam. Portanto, é preciso haver dióxido de carbono suficiente liberado na atmosfera para aquecer as coisas primeiro antes que a água possa ser útil”, explica Plait. Agora vem a questão relacionada à pressão atmosférica, que tem papel importante nessa ideia de aquecer Marte.

Polo norte de Marte (Foto: SA/DLR/FU Berlin, NASA)

Polo norte de Marte (Foto: SA/DLR/FU Berlin, NASA)

A pressão atmosférica é medida em unidades chamadas barras, e a pressão atmosférica da Terra ao nível do mar é de 1 bar. Em unidades métricas, são aproximadamente 1 kg de ar pressionando cada centímetro quadrado da Terra. Em Marte, a pressão atual é de 6 milibares; ou seja, tem cerca de 15 gramas de CO2 por centímetro quadrado. Para chegar a 1 bar, que é a pressão necessária para sustentar a água na superfície, seria preciso cerca de 2.500 gramas por centímetro quadrado. Sendo assim, seria preciso muito CO2 para tal, algo mais de 150 vezes o que existe agora.

Então o astrônomo diz o seguinte: “Aí está o problema. Não há tanto CO2 congelado nas calotas polares de Marte. Os autores da pesquisa [da Nature] descobriram que, se você descongelar completamente as duas calotas, você adicionará apenas cerca de 9 milibares de pressão ao ar, o que ainda é de apenas 15 milibares. Isso está muito longe dos mil milibares necessários! Lembre-se, as camadas de gelo seco nas calotas são finas, com apenas alguns metros de espessura, e no verão relativo a maioria sublima (transforma-se em gás) de qualquer maneira. Obviamente, isso não ajuda muito, então descongelar as duas calotas ao mesmo tempo ainda é apenas uma gota no balde”.

Plait continua, dizendo que “as calotas polares de Marte têm centenas de quilômetros de diâmetro, e seria necessário um grande número de armas detonadas para liberar todo esse CO2 (lembrando que o degelo da água não ajudaria; ela apenas congelaria novamente), e há também a questão da radiação persistente, que tornaria os polos inabitáveis ​​por séculos”. Desanimador, não?

Outra ideia: desviar cometas para Marte

Talvez uma ideia melhor do que bombardear Marte com armas nucleares numa tentativa de aquecer o planeta seria desviar a rota de cometas e asteroides rumo aos polos marcianos. Na visão de Plait, “esmagar cometas nos polos é uma ideia muito melhor, já que não há radiação, e eles geralmente são compostos por quantidades substanciais de água congelada e CO2”.

Só que desviar a rota de cometas e asteroides não é uma tarefa fácil, ainda que a NASA e a ESA estejam trabalhando em missões espaciais com este objetivo.