Os polos magnéticos da Terra mudam com o tempo, então eles não estão sempre alinhados com os polos geográficos ou do eixo de rotação da Terra. Mas quem diria que o mesmo acontece em Mercúrio? Bem, um novo estudo diz que o primeiro planeta do Sistema Solar também passa por variações nos seus polos magnéticos.

Aqui na Terra, a magnetosfera é de suma importância para proteger nosso planeta da radiação do sol, permitindo que a vida possa existir. A magnetosfera e seus polos são gerados pelo núcleo metálico fundido da Terra, e os cientistas acreditam que Mercúrio também possui um núcleo fundido — ou seja, de metal líquido. Uma vez que as variações no fluxo de ferro fundido causam o fenômeno chamado de “deriva polar”, que é o movimento dos polos magnéticos, faz sentido que o mesmo aconteça em Mercúrio. Só que as coisas por lá podem ser mais complicadas do que se pensa.Veja mais no MSN Brasil:

No novo estudo chamado Constraining the Early History of Mercury and its Core Dynamo by Studying the Crustal Magnetic Field, publicado no AGU, os autores se basearam nos dados coletados pela sonda Messenger, que orbitou Mercúrio de 2011 a 2015. A sonda usou um magnetômetro que media o campo magnético de Mercúrio em detalhes, e conseguiu dados mostrando anomalias magnéticas fracas na superfície associadas a crateras que causaram impacto no planeta

Os autores presumiram que essas anomalias aconteciam por causa do ferro nos objetos que causaram esses impactos, e quando esse material fundido esfriava, era modelado pelo campo magnético de Mercúrio. Durante as leituras da sonda, cinco crateras mostraram assinaturas magnéticas diferentes das que foram medidas em todo o planeta. Já que essas crateras são antigas, com cerca de 3,8 e 4,1 bilhões de anos, os pesquisadores concluíram que elas podem conter pistas sobre a posição dos antigos polos de Mercúrio e como eles mudaram ao longo do tempo.

Acontece que, quando as rochas que criaram as crateras esfriaram, um registro do campo magnético do planeta foi “gravado” nelas. Por isso a leitura da sonda capturou uma medida em todo o planeta, e medidas diferentes nessas crateras. Então, os cientistas usaram os dados das crateras para criar um modelo do campo magnético de Mercúrio ao longo do tempo. A partir disso, eles foram capazes de estimar a localização dos antigos polos magnéticos do pequeno planeta rochoso.

Esse método também é usado aqui na Terra para investigar a evolução magnética do planeta. O estudo da evolução do campo magnético e polaridade terrestre em épocas geológicas passadas chama-se paleomagnetismo, e se baseia no registo magnético nas rochas contendo minerais ferromagnéticos. Uma vez que essas rochas ainda no processo de arrefecimento se magnetizam alinhadas ao campo magnético do planeta, isso não é mais alterado com o passar do tempo.

Os resultados do estudo confirmaram a ideia de que os polos antigos estavam longe da atual posição, ou seja, mudaram com o tempo. Os cientistas esperavam que os polos magnéticos se agrupassem em dois pontos próximos ao eixo rotacional de Mercúrio, mas todos os polos das cinco amostras estão no Hemisfério Sul. Isso reforça a teoria de que a evolução magnética de Mercúrio foi muito diferente da que ocorreu na Terra, ou em outros planetas no Sistema Solar. Além disso, sugerem que o planeta pode ter mudado ao longo de seu eixo, ou seja, as localizações geográficas dos polos norte e sul teriam sido alteradas.

A Terra tem um campo dipolar com dois polos, mas Mercúrio tem um campo dipolar-quadrupolar, com dois polos e uma mudança no equador magnético. Seu antigo campo magnético poderia ter sido até mesmo multipolar, com “linhas de campo como espaguete”, segundo os autores do estudo. Mas não há como sabermos algo do tipo sem estudar amostras físicas de rochas coletadas no planeta em questão.

Espera-se que a nova missão que estudará Mercúrio de pertinho, a BepiColombo, colete mais dados do campo magnético do planeta e, assim, forneça mais informações para novos estudos do tipo.

Fonte: Phys.org, Universe Today