No ano passado, dez alunos se reuniram na laje de uma casa na Favela Nova Holanda, dentro do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, para juntos estudarem e se prepararem para o vestibular. Assim nasceu a UniFavela, a partir de uma iniciativa de Arley Sena do Nascimento que, quando entrou para o curso de Química Industrial da UFRJ, decidiu retribuir a ajuda que havia tido em sua aprovação, ajudando novos alunos. Passado um ano, o trabalho de Arley – que se juntou ao amigo Laerte Breno, estudante de Letras para formar a UniFavela – finalmente colhe os melhores frutos possíveis, e o sentido efetivamente revolucionário da educação se comprova na prática.

© Vitor Paiva

Dos 10 alunos preparados no cursinho pré-vestibular, todos – sim, todos – foram aprovados em universidades públicas. Partindo dos estudos em um quadro sobre tijolos, a UniFavela alcançou 100% de aproveitamento, em um resultado superior aos melhores e mais caros cursos pré-vestibular do Brasil. As aprovações vieram de algumas das melhores universidades públicas do Rio de Janeiro: “Nos reunimos para fazer um balanço e foi aí que nos demos conta de que dos dez alunos que frequentavam regularmente a laje, todos haviam conseguido vaga na Uerj, na UFRJ ou na UNIRIO”, contou Letícia da Paz Maia, que aos 21 anos é professora voluntária de História na UniFavela, assim como uma das coordenadoras do projeto.

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No início, as aulas eram totalmente improvisadas, através inclusive da realização de vaquinhas para cobrir gastos com, por exemplo, xerox. O sucesso do projeto levou a UniFavela para uma sala de aula tradicional, dentro da ONG Vida Real, na própria comunidade. Hoje a iniciativa conta com 21 professores, uma pedagoga e dois ex-alunos ajudando na gestão – tudo funcionando com trabalho voluntário, em sua maioria a partir de jovens cotistas oriundos da própria comunidade, que permitem que o projeto funcione de segunda à sexta, para as aulas de uma segunda turma. Aos sábados, simulados, aulões, debates, oficinas e cineclubes são oferecidos.

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As dificuldades, no entanto, não desapareceram completamente na UniFavela: as constantes e violentas operações policiais atrapalham o funcionamento do curso, e recentemente um professor não pôde dar aula por não ter dinheiro para a passagem de ônibus. E se os obstáculos seguem, também segue o espírito comunitário, inclusive através da vaquinha, que permanece no ar, a fim de permitir que o próprio projeto siga funcionando – e trazendo resultados. Como perfeitamente traduz o post da professora Letícia Maia, “Educação popular é resistência”.

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