O desemprego continua alto, com 12,6 milhões de brasileiros procurando emprego. Mas o retrato é diferente na tecnologia da informação: 70 mil novos empregos serão criados até 2024, mas metade dessas vagas pode não ser preenchida pela falta de trabalhadores qualificados. Hoje, já são cinco mil vagas abertas, criadas principalmente por startups em crescimento.

Para a escola de programação Future4, a resposta está em um modelo consagrado no Vale do Silício: formar profissionais, ajudá-los a encontrar esses empregos e só cobrar as mensalidades quando eles estiverem bem colocados no mercado de trabalho. A Future4 já começou sua primeira turma e projeta desenvolver “dezenas de milhares” de profissionais em tecnologia da informação nos próximos anos.

Necessidade e inspiração

O cofundador da Future4 e doutorando em formação de empreendedores na graduação Artur Vilas Boas percebeu uma oportunidade de negócio quando atuou como presidente, coordenador e membro do conselho do Núcleo de Empreendedorismo da Universidade de São Paulo (NEU/USP).

“A dor na contratação de desenvolvedores vem de um gargalo no sistema educacional brasileiro. É uma formação elitizada, teórica e demorada, que não dá conta do mercado. Um grande número de potenciais desenvolvedores é deixado de lado.  Temos talento distribuído pelo país, mas as oportunidades não acompanham.”

Procurando modelos mais financeiramente acessíveis e práticas de ensinar programação, Vilas Boas chegou à Lambda School. A escola de desenvolvimento, localizada no Vale do Silício, tem como principal diferencial um curso online de nove meses de duração em que o pagamento é realizado apenas quando o estudante tiver um salário de 50 mil dólares por ano.

Em um país onde o endividamento estudantil é um grande problema, a Lambda School cresceu. Cerca de 1.300 alunos estão tendo aulas pela escola atualmente e 86% dos formados conseguem um emprego com salário médio de 60 mil dólares até seis meses após as aulas em gigantes de tecnologia como Amazon, Google e Uber. O valor do curso é de 20 mil dólares se pago antecipadamente ou 30 mil dólares se pago após obter o  emprego.

Para criar uma escola de programação brasileira nesses moldes, Vilas Boas se uniu ao sócio Luciano Naganawa, que já havia empreendido com a desenvolvedora de aplicativos mobile (e de engenheiros de software) Outsmart. A Future4 tem os dois sócios, três funcionários e Ricardo di Lazzaro, investidor e membro do conselho de administração.

Luciano Naganawa (cofundador), Paula Arantes (funcionária), Ricardo di Lazzaro (conselho) e Artur Vilas Boas (cofundador), da Future4

© Future4/Divulgação Luciano Naganawa (cofundador), Paula Arantes (funcionária), Ricardo di Lazzaro (conselho) e Artur Vilas Boas (cofundador), da Future4

Como funciona?

Os cursos duram seis meses e com aulas em tempo integral, com mil horas de aula. Há cursos de full stack (desenvolvimento de aplicações web em frontend e backend); user experience e user interface (cuidar de design e layouts para a experiência do usuário); desenvolvimento de aplicativos para Android e iOS; e data science (ciência de dados com aplicação de estatística, inteligência artificial, aprendizado de máquina e tratamento de dados).

Assim como na Lambda School, a Future 4 tem aulas online, mas ao vivo e com diversos exercícios práticos. “O tempo real faz toda a diferença. Os alunos programam juntos e tiram dúvidas na hora”, diz Vilas Boas. O estudante tem diariamente uma rotina de aula, programação, revisão e feedbacks. O aluno recebe uma avaliação de como foi seu desempenho e ele pode contar como foi trabalhar em grupo e o que está achando do curso.

Aula da Future4

© Future4/Divulgação Aula da Future4

O pagamento do curso, de 24 mil reais, só é feito quando o estudante ganhar ao menos quatro mil reais mensalmente. O profissional paga mensalmente 15% do seu salário como uma prestação. Em dois a quatro anos, as aulas costumam ser quitadas. “Não podemos nos posicionar como uma agência de empregos. Mas, como o aluno só nos paga quando estiver empregado, há uma pressão para inseri-lo no mercado de trabalho”, diz Vilas Boas. 

Os cursos da Future4 dão projetos maiores como tarefas, que podem ser colocados no portfólio; selecionam mentores para acompanhar o curso; e agendam palestras semanais com desenvolvedores que já atuam no mercado. No último mês de aulas, a escola ajuda os estudantes a preencherem seus currículos e dá dicas de como se portar nas entrevistas. Para o futuro, a Future4 espera fechar parcerias de contratação com empresas.

A Future4 opera há três meses, recebeu 280 inscrições e começou sua primeira turma há poucas semanas, com 20 alunos. Há tanto profissionais de tecnologia da informação que não se sentem confortáveis em desenvolver quanto os que buscam migrar de carreira, formados em cursos como Direito, Engenharia ou Nutrição. Os candidatos passam por entrevistas; desafios de resiliência e lógica; uma análise de tempo disponível ao curso e empolgação com o tema; avaliação do projeto desenvolvido; e uma entrevista final.

“A beleza desse modelo é a inclusão. Retiramos a barreira de acessibilidade tanto na mensalidade quanto na avaliação, porque levamos em conta sua dedicação no desafio, não seu histórico educacional. Ao mesmo tempo, desbloqueamos uma quantidade enorme de talentos de tecnologia, suprindo a carência de grandes empresas”, diz Vilas Boas.

O plano é fechar novas turmas mensalmente, com diversos níveis. Se um estudante estiver indo muito bem ou tiver muitas dificuldades, portanto, pode ir mudando de turma. Em 2019, a ideia é ter de 40 a 50 alunos. No início do 2020, o número de estudantes deve subir para 100 a 200.

Em longo prazo, o plano é formar “dezenas de milhares” de desenvolvedores — uma meta digna da Lambda School.